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Lascívia

Este conto é um desafio de uma oficina online,

sobre a elaboração

de um conto erótico com o protagonismo masculino.

Carlos estava sentado na poltrona, ao lado da janela, entediado. Quem diria que ficasse assim, depois da reunião com os estagiários e as modelos excitantes que participaram da aula de pintura. Entretanto, nem a aula ou as mulheres faziam-no esquecer o homem que se atravessara na frente do carro, obrigando-o a parar quase em cima da calçada. Por um momento, imaginou tratar-se de um assalto, apesar da aparência de executivo. Mas quem poderia confiar num homem de terno e uma maleta embaixo do braço, hoje em dia? Dera uma desculpa, dizendo-se interessado em saber sobre as suas aulas. Carlos não respondera. Estava irritado demais para explicar qualquer coisa.

Levantou-se, pegou um café e voltou a sentar-se, olhando o deserto da rua que se alongava além da vidraça. Não chegava ninguém, era o que pensava. Entretanto, não demorou muito e bateram na porta.

Espiou pelo olho mágico e avistou uma cara disforme de fundo de colher. Abriu a porta e um homem alto, de barba e cabelo curto o observava com indisfarçada atenção. Seria alguém interessado na aula de pintura? Mas teve um sobressalto, quando o reconheceu. Era o mesmo homem que o interpelara no dia anterior, quase cometendo um acidente. Fez um gesto rápido de fechar a porta, mas o outro o impediu com o pé.

O homem se desculpava por ter vindo até a sua casa e explicou de imediato, que soubera por um de seus alunos da aula de pintura. Disse, por fim, que procurava por uma pessoa.

Carlos tirou o celular do bolso e digitou um número. O outro ficou inquieto, pedindo que não chamasse a polícia, pois não era um criminoso. Só queria fazer algumas perguntas. Mostrou seus documentos e acrescentou que era um empresário do ramo do aço.

Carlos gritou, irritado:

― Cara, não me interessa a tua vida, nem o que tu faz! Pra mim, isso é assédio à privacidade e perseguição. Não sei quais são os teus objetivos e vou chamar a polícia. Não te conheço, não tenho nenhum negócio contigo, portanto vaza!

Neste momento, o homem retirou o pé da porta e começou a chorar, em desespero. Em soluços, dizendo-se constrangido, pediu pelo amor de Deus, que o ouvisse. Ele só queria conversar, fazer algumas perguntas.

Carlos, intrigado, não sabia o que fazer. Um pouco desarmado, perguntou:

― Mas o que tu queres saber? Tu queres aula de pintura? Sabes o que faço aqui, tenho meia dúzia de estagiários e algumas mulheres bonitas. Elas ficam no meio entre os cavaletes, despidas, e cada pintor com a sua prancheta e suas tintas. Resumindo, é isso que fazemos. Não tem segredo. Agora, cara, disse tudo, pode ir embora.

― Eu tenho uma oferta a fazer. Deixe-me entrar, ver o local onde a aula acontece, conversar um pouco. Não leve a mal, mas a minha oferta é em dinheiro, eu pago por uma aula ou as do mês todo. Só quero que confie em mim e converse comigo. Olha os meus documentos, vê o meu celular, aqui estão todos os meus dados.

Carlos não quis ver os documentos. Coçou a cabeça, dividido. Um mês de aula, pensou. Bem que seria uma solução para algumas dívidas. Então, deu a cartada:

― Trezentos.

O outro sem piscar abriu a carteira e entregou três notas de cem reais. Carlos pegou o dinheiro, um tanto chateado consigo próprio. Mas que mal havia, se o homem mesmo fizera a proposta? Ele precisava de dinheiro, o outro queria pagar. Então que entrasse.

Ele entrou, deu alguns passos em direção a uma poltrona, a mesma em que Carlos estava anteriormente sentado, observando a rua pela vidraça. Olhou em torno e mostrou-se um pouco apreensivo. Perguntou se Carlos não queria olhar os documentos para se asseverar que ele era um homem de bem. Carlos pegou a identidade e leu o nome: Paulo Sorren Herrmann.

― Tu é bem conhecido. Estás sempre na mídia. ― Sim. Mas não vamos falar de mim, pelo menos neste aspecto empresarial, de homem bem sucedido, com família e filhos. Eu sou um homem que procuro muitas coisas, que não encontro na minha vida profissional e pessoal. Por isso, quase supliquei para entrar.

― Não entendi nada.

― Vou me explicar. Eu acho maravilhoso este ambiente, este cenário. Tudo aqui me dá uma atmosfera de sensualidade, de lascívia.

―Vou te dizer, que somos muito liberais na sexualidade, mas posso te garantir que sou hétero.

― Não te preocupa. Falei no ambiente apenas. É ele que me envolve, que me cerca, que me consome. Se me deixar ficar aqui, quando houver aula, eu posso pagar muito mais.

Carlos o olhava preocupado. Afastou-se um pouco e ofereceu uma cerveja.

― Não quero beber. Quero que você me fale tudo, me explique o que acontece e como acontece aqui.

― Eu resumi há pouco.

― Mas me fale mais, dê detalhes. – dizendo isso, esticou as pernas parecendo mais relaxado.

Carlos foi até o quarto e trouxe um cigarro de maconha. Sentou-se num banco de couro e fumou lentamente. Ofereceu a ele, mas Paulo argumentou que nunca tinha usado.

― Tu é um burguês safado.

― Porque diz isso? Tu que te diz liberal e tem preconceito contra mim.

― Tá certo. Tem razão.

Carlos fumava e enchia o ambiente de um aroma adocicado. O outro ficava cada vez mais à vontade. Levantou-se, caminhou pela sala e observou os cavaletes encostados na parede, os bancos altos de madeira, a banqueta de couro onde as modelos sentavam. Olhou para Carlos, que agora deixara o banco para sentar-se no chão, numa posição imitando a de lótus. Indagou:

― Não vai me contar tudo?

Carlos fungou e falou com a voz um tanto fanha, em virtude do fumo. Sorriu e perguntou se ele queria saber tudo.

― Sim, tudo.

― Então para de girar pela sala. Senta aí.

Começou a descrever a aula e Paulo tinha a impressão de que já estivera naquele local, que sabia tudo o que iria acontecer, mas gostava de ouvir, como se fosse a história das mil e uma noites. Uma história que se repetia, mas retomava um sabor diferente.

Por fim, repetiu o que ouvira:

― Então a modelo lindíssima senta-se na banqueta, no círculo, completamente nua. Homens e mulheres a ficam analisando entre os cavaletes, observam o seu corpo, o contorno dos seios, a saliência da barriga, o umbigo, a genitália e eles se excitam.

― Não, ninguém se excita. É um trabalho.

― Ah, não me diz que tu não fica de pau duro também.

― Claro que não, pelo menos, não de propósito. Pode acontecer, mas a gente se controla.

― Eu já estou excitado, imaginando tudo que me disseste.

― Não é legal, cara. Isso é só imaginação. Aqui não é para isso.

― Mas eu imagino sim, imagino os olhares enviesados, fingindo que estão desenhando ou pintando. Eles observam os detalhes e sentem tanto tesão que quase não resistem. Tanto eles, como elas. Quando um homem está lá, também observam a silhueta, a barriga, e deslizam com seus olhares por reentrâncias que mais se interessam, observam o pau caído, encolhido, o saco achatado no banco e se seduzem a si próprios.

Em seguida, suspira sôfrego e prossegue:

―Eu preciso participar de uma aula. Só vou encontrar aqui, o que nunca consegui no meu meio, tu entende?

―Aqui não é casa de prostituição. Por que tu não vai na zona ou contrata uma garota de programa.

― Assim, tu estás me ofendendo. Não podes acabar com a minha ilusão, com o meu sonho. Com prostituta, tudo é falso. Aqui é real.

― Não, nenhuma mulher ou homem, nenhum modelo vem pra se exibir. Ninguém vem vender o corpo aqui. Isso é uma aula de arte, cara.

― Pois então, eu não quero comprar nada. Só a tua permissão. O gozo só é verdadeiro, quando é espontâneo. É isso que preciso.

― Mas o outro não sabe da tua intenção. Ele é um profissional.

― Pode saber. Eu posso me excitar com quem está ali no círculo e acabar gozando, entende. Pode ser um ou dois. Uma mulher e um homem. Sem eles saberem a princípio, mas depois, haverá uma reação subliminar que aos poucos vai nos comprometendo. Vai atingindo a todos, como uma orgia de sedução.

― Então tu é gay.

― Sou bi e só sinto prazer assim. Eu sonho com isso, Carlos. Por favor, deixa eu participar da aula de artes, eu quero o círculo, quero os olhos escondidos e comprometedores. Eu sei, que aos poucos, todos vão sentir a mesma paixão, o mesmo tesão. Basta haver alguém que os seduza.

― E tu acha que podes fazer isso?

― Posso, assim como fiz contigo.

― O que tu queres dizer, cara? Que porra é essa?

― Que assim como a Sharazade eu recontei a história e tu revivesse tudo. Tu estás excitado, to vendo daqui.

― Cara, já te ouvi demais. Vai embora, vaza.

― Não fica irritado, sei que és hétero, é normal, não muda nada. E eu não vou sair, eu paguei pra me ouvires, lembras? Agora quero que marques uma aula. Eu preciso ter essa experiência.

Carlos levantou-se, dirigiu-se à janela e abriu a cortina. Uma luz tênue se estabeleceu, expressando o entardecer que findava. O outro se aproximou e falou quase ao seu ouvido:

― Eu espero. Não precisa ser amanhã. Quando tu quiser.

Carlos não disse nada. Sentiu com prazer o aroma adocicado que ainda envolvia a sala e como o sultão Shariar, quis ouvir a história de novo.

Fonte da ilustração: Efes Kitap - site: https://pixabay.com/pt/users/efes-18331/

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