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Mostrando postagens de Julho 26, 2017

O VIGÉSIMO ANDAR

Às vezes, tenho a impressão de que as paredes do elevador se aproximam e me acolhem com delicada impaciência. Passam por meu corpo faminto e suado e me dizem coisas desconexas, que somente elas entendem.
Seguro-as com força: as mãos espalmadas, o peito encostado em suas carnes metálicas. Sinto um leve arrepio.
Não consigo afastar-me, como se estivesse irremediavelmente preso, quase fundido em suas fibras e entranhas.
O elevador para no décimo andar.
Um homem entra e finge não me ver.
Ao mesmo tempo, as paredes se afastam, tal como eu, que me encosto no ângulo da esquerda. Ali, a minha visão é privilegiada.
Olho em torno, retribuindo a distração.
Ele abre uma maleta, retira um notebook e examina qualquer coisa, sem muita atenção.
Observo-o firmar os olhos na direção da porta. Parece ansioso. Reparo que tem olhos claros e frios. Talvez seja um executivo, um professor de línguas, um advogado. Não é, porém, um cidadão de bem.
Percebo a aflição que paira inquieta em seus olhos. Um olha…