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A CASA OBLÍQUA - CAP. XXXIII

Clara examinou os textos, se perguntando porque Dona Luisa nunca se referia ao filho. O que teria havido com a criança? Haveria alguma fato relatado naquelas páginas, que ela ocultou durante tantos anos? Lembrou a chave do cofre. Se ao menos pudesse ir até lá, descobrir o que realmente existe guardado com tanto critério. Entretanto, seria uma temeridade afastar-se do hotel. Precisava acalmar-se e encontrar uma saída. Deveria constituir um advogado para elaborar um hábeas corpus, que possibilitasse a sua liberdade.

Por um momento, ela pensou em Nael. Ele estava numa situação mais difícil ainda. Estaria ele pensando nela, com o mesmo carinho que lhe dispensou quando esteve ao seu lado?

Não queria voltar a iludir-se como acontecera com Bruno. Não era uma adolescente. Era uma mulher adulta, que sabia o que queria, os seus objetivos na vida.

Mas agora, de uma hora para outra, se transformara noutra pessoa: uma mulher frágil, insegura, assustada e ao mesmo tempo, obstinada com a situação de Dona Luisa, que passara a conviver como se fizesse parte de sua vida. Talvez, motivada pelas semelhanças das duas situações, que a impressionara tanto.

Sendo assim, desfrutaria das páginas daquele diário, cujo segredo fora mantido na mente e no coração de Dona Luisa. Quem sabe, não chegaria ao verdadeiro desfecho, o que a fez tornar-se uma mulher tão solitária. Talvez, este também se assemelhasse ao seu.

“Meu pai está triste, acabrunhado. Apenas o pequeno Lucas o faz feliz. Quando não está ao seu lado ou trabalhando, dedica-se quase exclusivamente ao rádio. Reencontra os amigos de sempre ou parceiros novos e comunica-se com praticamente todas as partes do mundo. Felizmente, com o final da guerra, arquivaram o processo contra ele, inclusive o administrativo e voltou a trabalhar no banco. Raramente fala em mamãe, e quando o faz, percebe-se em seu olhar, em toda a fisionomia uma tristeza que o afeta fortemente.

Com o passar do tempo, sinto que preenchemos as nossas vidas, eu na minha escola, junto com os meus alunos e em casa, ao lado de meu filho. Estamos muito unidos.

Eu, particularmente, vivo apenas de esperanças de reencontrar Saymon, que aos poucos vão-se esvaindo, como se dissipam os entardeceres, um atrás do outro, enquanto fico olhando o horizonte, sonhando que ele volte para o Brasil, e me tome nos braços como costumava fazer e repita mais uma vez que me ama.

Sonho que conheça o nosso filho, mas a Tchecoslováquia é um país muito distante, e que sendo repatriado como foi e devolvido às autoridades militares, é provável que o tenham punido com a morte. Sinto o coração apertado, quando penso nisso, que talvez tenha sido fuzilado pelo comando nazista, sem jamais saber de nosso filho. Lamento o meu egoísmo em não ter-lhe contado.

Na verdade, tenho muitas dúvidas, por vezes, imagino-o vivo, casado com outra mulher, esquecido para sempre de mim, uma brasileira que apenas passou em sua vida. Então, choro em desespero, sem ter outro sentido, a não ser viver pelo meu filho e pelo meu pai.

Quanto a Júlio, percebo que a morte de minha mãe, o seu sofrimento transformou a sua conduta, de certo modo. Está mais amadurecido, aos poucos voltando ao rapaz alegre que era antes de ir para a guerra. Há alguns meses, conheceu uma menina e parecem muito apaixonados. Isto é bom, pois faz com que tenha outros interesses, que esqueça senão em definitivo o passado que o torturou naquelas paragens distantes da Europa, pelo menos, se torne apenas uma experiência desagradável que ficou para atrás.

Às vezes, pareço uma adolescente desabafando nas páginas deste velho caderno, mas não posso compartilhar o meu sofrimento com meu pai. Deixo-o com os deles, que já são de bom tamanho. “

Luisa foi chamada à sala da diretora. Aguardou o intervalo, liberou os alunos e dirigiu-se até a sala de Dona Marisa, intrigada, por a ter chamado àquela hora da manhã.

Estava tão absorta que nem se deu conta que não havia ninguém na sala e entrou, procurando-a.

Em seguida, afastou-se, dirigindo-se à biblioteca, preocupada em encontrar um livro que havia lido a resenha numa revista especializada. Achava meio difícil encontrá-lo, porque era um livro recém publicado, mas como fazia parte de um projeto da pedagogia educacional da escola, aventurou-se.

Estava assim, entretida por entre as estantes, quando um dos seus alunos a avisou que a diretora estava esperando-a, em sua sala. Luisa desistiu da pesquisa e voltou, confusa.

Bateu à porta e Dona Marisa respondeu, irritada:

— Você já entrou, nem precisou bater, por que agora está fazendo esta cena?

Luisa entrou, incomodada com a observação de censura. Pediu licença, aproximando-se da mesa e sentando-se a sua frente.

A mulher a encarava com os olhos atrás de lentes esverdeadas. Abria um caderno e punha as mãos sobre ele, de forma a analisar o conteúdo, mitigando a própria impaciência.

Luisa perguntou o motivo de a ter chamado. Ela fitou-a por um momento, analisando-a.

— Tem certeza de que não sabe por que a chamei?

Antes que Luisa dissesse qualquer coisa, ela prosseguiu:

— Você está mesmo estranha, Luisa. Entrou nesta sala, olhou para os lados e nem me viu, só porque eu estava agachada atrás da mesa, abrindo uma gaveta. Não podia esperar um pouquinho, para ver se me encontrava?

— É que nunca imaginei que estivesse aqui.

— Você ultimamente está muito ansiosa.

— Pode ser, mas continuo sem saber o motivo por que me chamou, Dona Marisa.

A diretora levantou-se, meio atrapalhando-se com a cadeira. Ajeitou a saia justa e deu alguns passos, desfilando pela sala.

— Você quer saber porque a chamei. Bem, por dois problemas. O primeiro é esta ansiedade, esta maneira distraída que você apresenta. Você sabe que na nossa escola, primamos pela sensatez, o equilíbrio, a sobriedade.

Luisa empalideceu. Realmente, sentia-se muito nervosa nos últimos meses, mas nada que atrapalhasse as suas aulas. Sabia domesticar muito bem a fera que a atacava diariamente.

A diretora deu meia volta, foi até a porta certificando-se se estava fechada. Olhou pela parte superior, envidraçada para o corredor, onde passavam alunos afoitos pelo intervalo, professores que se adiantavam para as conversas com os colegas ou o resolver alguma pendência na secretaria. Voltou para a mesa e sentou-se novamente, esticando o pescoço na direção de Luisa e olhando-a detidamente nos olhos, com a voz mais baixa, em segredo.

— O segundo motivo, você já sabe.

Luisa redarguiu que não sabia do que se tratava, mesmo porque mantinha-se ocupada em suas tarefas, da mesma forma que antes.

Dona Marisa, então, foi taxativa:

— O problema, Luisa, que você é uma mãe solteira.

Luisa estremeceu a voz, mas defendeu-se dizendo que esta situação particular não intervinha no bom desempenho de seu trabalho.

Dona Marisa indignou-se:

— Não se faça de desentendida! Você é um péssimo exemplo para os alunos. – E mostrando-se mais calma. – Você há de convir que as mães devem estar preocupadas. As alunas sempre se espelham nas professoras, seguem-nas como exemplos de virtude, de moral, de bons costumes. Você não se encaixa neste perfil.

— Mas a senhora sabe o que aconteceu comigo!

— Sei, sei muito bem, que você se entregou a um homem qualquer, um desconhecido. Parece que não esperou muito, não é?

— A senhora está me ofendendo!

— E o quer que eu faça? Que aceite esta situação? Além disso, um alemão, um inimigo do Brasil!

— Ele não é alemão, é tchecoslovaco. Nunca foi a favor do nazismo, pelo contrário, lutou na resistência em seu país, por isso, precisou fugir.

Luisa procurava ocultar uma lágrima e prosseguia, defendendo-se.

— Mas a senhora sabia que eu estava grávida, por que não me fez estas acusações antes de nascer o meu filho?

— Porque estávamos em guerra e não ficava bem uma escola como a nossa tomar uma atitude, digamos, mais radical, naquela época. Mas agora, não podemos fazer mais nada.

— O que a senhora vai fazer?

— Eu, não. O conselho de pais e mestres e os seus próprios colegas. Eles não querem mais você aqui. Acham que é um péssimo exemplo para a juventude. As senhoras de bem desta cidade estão muito desconfortadas com a sua presença.

Luisa levantou-se num ímpeto. Olhou-a bem nos olhos, faiscando de raiva e indignação.

— Ok. As senhoras de bem não querem a minha presença e a senhora precisa do seu dinheiro para sobreviver. Isto quer dizer que estou na rua!

— Exatamente. Mas nós podemos ainda lhe dar uma chance futuramente. Somos pessoas humanitárias, que zelamos pela educação, mas tudo tem o seu tempo. Se você casar com um homem bom, que possa criar o seu filho e registrá-lo como pai, você poderá voltar. Afinal, não descartamos uma boa profissional.

— Muito obrigada. É muita lama nesta escola. Jamais porei os meus pés aqui.

— Você é que sabe. Mas quem trouxe a lama, não fomos nós.

Luisa afastou-se rapidamente, sem voltar-se. Na sala de aula, pegou os seus pertences e esperou os alunos voltarem. Quando chegaram, afogueados pelas brincadeiras e fazendo a algazarra de costume, pediu que sentassem em silêncio. Explicou-lhes que deixaria a escola e que em breve, teriam outra professora. Alguns mais extrovertidos, indagavam o motivo. Ela apenas disse tratar-se de uma situação profissional. Despediu-se e afastou-se.

Dona Marisa esperou que ela saísse e entrou na sala.

Na rua, Luisa não conseguiu evitar as lágrimas. Sentia-se ofendida, humilhada. Por outro lado, tinha a convicção de que não poderia esperar outra coisa daquele povo provinciano. Perguntava-se mesmo assim, o que estava acontecendo com ela? Que punição terrível teria que acatar, pelo único crime que cometera, de amar o homem errado? Tudo parecia voltar-se contra ela e contra a sua família. Não bastava o sofrimento causado pela morte trágica da mãe. Não bastava Saymon ser deportado e ela nunca mais o ter visto? O que mais ainda estava por vir?

Clara repetia para si mesma esta frase, que lhe ressoava aos ouvidos, como se inspirada por alguém muito próximo. Imaginava-se enfrentando aquela situação adversa.

Quando o celular tocou, ela teve um leve estremecimento, como se aquele ruído não passasse de um som estranho. Recuperou-se e ainda alarmada e atendeu. Do outro lado, o advogado que Bruno constituíra para impetrar um hábeas corpus e livrá-la da prisão. Depois, bastaria esperar a liminar até a decisão judicial. Então, combinou encontrá-lo no dia seguinte.

Ao desligar o telefone, estava transtornada. Olhava pela pequena janela do quarto e sentia-se uma prisioneira. Procurou os comprimidos na bolsa e tomou-os rapidamente, sem ao menos conferir a quantidade exata. Deitou-se novamente, tentando relaxar. Puxou o diário para o seu lado, ajeitou o travesseiro, recostando-se e voltou a lê-lo.

*************************

“Quando Júlio casou-se, ficamos apenas papai, Lucas e eu. Júlio mudou-se para a Capital, com a esposa, motivado por uma oferta de emprego. Nós continuávamos a mesma vidinha de sempre. Meu pai em seu trabalho, eu dando aulas particulares, função que passei a exercer após a minha demissão da escola, além das tarefas de dona de casa. Também tinha o velho hábito do radioamador. Com o passar do tempo, passei a ter centenas de companheiros, que me ajudavam a mitigar a solidão. Meu pai dormia e cada vez mais se afastava de seu antigo hobby. Lucas ficava ao meu lado, até dormir, já com a idade de um ano.

Às vezes, eu chorava. A solidão doía, como uma ferida que não cicatrizava, ao contrário, se transformava lentamente numa doença, que me corroía a alma. Noutros momentos, me sentia egoísta, afinal tinha um filho saudável, mas me apegava ao passado sem poder desvencilhar-me de sua história.”

Numa dessas noites em que o outono espelhava uma beleza tranquila, sem o afogueamento do verão, o atropelo ventoso da primavera ou o frio gélido do inverno, Luisa se preparava para levar Lucas para o quarto. Beijou-lhe a bochecha rosada, o pescoço pendido para o lado, formando ruguinhas, num sono profundo.

Levou-o e voltou para a sala, sentando-se numa poltrona, deixando o rádio de lado, naquele momento, lendo o livro de memórias de Graciliano Ramos, Infância, recém publicado. Leu algumas páginas, mas não conseguia concentrar-se.

O silêncio era absoluto nas redondezas. Como tantas vezes em sua vida, espiava pela janela, fitando as luzes escassas da rua. Pensou no verso de Emily Bronte: “O amor muda como as folhas das árvores no outono e se eu for capaz de entender isto, serei capaz de amar”. Talvez por este motivo, fitasse assim, atenta à natureza, detendo-se em seus detalhes, movimentos e sopros de brisa.

As folhas amarelas cobriam as calçadas, mas Luisa ainda estava no germinar da primavera. O tempo havia sido cruel, não permitira atingir esta paz, esta maturidade, que somente os que amam e compartilham com o ser amado a sua vida, possuem.

Ela ergueu a cabeça para o céu, examinando as estrelas, que pareciam juntar-se em grupos. Tal como acontecera naquela noite, em que ouvira um chiado estranho na transmissão, uma voz que pedia socorro, entre frequências desalinhadas e dispersas. Empurrou devagar, o postigo, abrindo-o. Ficou algum tempo pensativa. Depois, afastou-se devagar, caminhando pela casa, lembrando da mãe e suas angústias. Seu arrastar depressivo de chinelos, seu insensato organizar dos brinquedos no porão, a sua ruína lenta, levando-a ao ápice da loucura.

Por um momento, ela teve a intenção de dirigir-se ao porão, no qual nunca mais tinha colocado os pés. Seu pai praticamente o eliminara da casa, doando os brinquedos antigos de Júlio, desfazendo-se de objetos que considerava inúteis, limpando rigorosamente todas as estantes, apagando os vestígios deixados pela decadência de Moema. Mas para Luisa, aquele lugar também havia sido um ninho de amor, o resgate de sua vida melancólica e solitária, para um aprendizado de felicidade. Mas evitou descer aquelas escadas, ao contrário, afastou-se rapidamente, deixando a cozinha e enveredando pelo quintal.

Luisa passeou despreocupada pelas folhas secas, sentiu o sereno molhar-lhe os braços e uma aragem fria a fez estremecer. Fez a volta na casa, aproximou-se da garagem. Deu alguns passos e encostou-se no velho portão de ferro, que a separava da calçada. A rua estava deserta, entretanto sentia-se bem em ficar ali, olhando as árvores ao longe, pouco iluminadas pelas luzes amarelas.

De repente, voltou-se assustada. Parecia ouvir vozes dentro de casa. Lembrou-se do pai, talvez acordado, procurando-a. Voltou às pressas para o interior da casa, mas logo percebeu que se tratava do rádio.

Aproximou-se do móvel e deteve-se a ouvir o recado. Era a voz de um homem que entrava na sua frequência, mas não se identificava. Em dado momento, a voz silenciou e Luisa pensou tratar-se de uma brincadeira. Isto não costumava acontecer, mas a investida fugia completamente dos padrões dos radioamadores. A voz parecia distante, imprecisa.

Ela acionou os controles e ficou à espera de novas conexões. Tentou comunicar-se com companheiros conhecidos.

De súbito, a mesma voz retornou, com um recado estranho:

“Eu disse que não a esqueceria. Eu estaria sempre do seu lado.”

Luisa sentiu uma batida tão forte no coração, que parecia ser atingida por um torpedo. Seu corpo estremecia e seus ouvidos registravam o seu sonho. Aquela voz, aquele sotaque.

Saymon entrou em contato com ela.

Ele não a tinha esquecido.

Luisa não conseguiu responder. E se fosse uma brincadeira? Se estivessem zombando de seu sofrimento?

Tentou novamente comunicar-se, mas foi em vão. Ficou ali, exaustivamente, esperando um novo contato, comunicou-se com vários companheiros, pediu que descobrissem a interceptação da onda, mas já era tarde para qualquer descoberta.

Então Luisa ficou durante muito tempo perdida em pensamentos de esperança e angústia, expectativa e desilusão, sonho e medo.

O céu riscava-se de rajas avermelhadas, pois a aurora já se adiantava.

Luisa afastou-se do rádio e sentou-se na poltrona tentando voltar à leitura. Por fim, adormecera, com o livro nas mãos. Num salto, acordou e decidiu deitar-se. Não havia o que esperar. Devia pelo menos descansar o corpo, já que a mente estava muito agitada.

Percorreu em passos lentos o corredor que a conduzia ao seu quarto, dirigindo-se ainda à cozinha para servir-se de água. Chegando lá, encostou-se no balcão de pia e sentiu uma certa tontura, que a deixava confusa. Encheu o copo, e por instinto olhou para a escada que dava para o porão. Seus olhos assustados, fugindo das órbitas e o corpo entorpecido, travado. O copo no chão, estilhaçado. Um zunido nos ouvidos.

— Não se assuste, sou eu. Sou eu, Luisa, eu voltei, eu voltei como lhe prometi.

Luisa estava presa ao chão. O mundo desabava ou se reconstruía. Podia ser um sonho, uma falsa ilusão, a necessidade de companhia, o amor abandonado, a solidão.

— Luisa, fui eu que entrei na sua frequencia, queria fazer-lhe uma surpresa.

— Surpresa? Você considera isso uma surpresa? Vá embora, por favor, vá embora.

Saymon a olha, desolado. Naquele momento, todas as expectativas se desmoronavam frente ao conflito de Luisa. Então ela já o esqueceu. Por que o tratava daquela maneira?

— Como pode dizer isso, depois de tudo que passei? Você sabe o que aconteceu com a minha vida?

— Luisa, então me conte.

— Não, você não acredita em mim, prefere pensar que eu o esqueci. Então, volte para a sua terra, o seu país e esqueça que eu existi um dia, que eu fui alguém na sua vida.

Saymon afasta-se cabisbaixo, mas ela, como se voltasse a si, corre ao seu encontro, parando no meio do caminho, temendo perdê-lo para sempre.

— Não, não Saymon não quero isso, não quero que você vá!

Ele sorri. Os olhos brilham, intensos. Detém-se na porta. Aproxima-se e a abraça, carinhoso. Carícias recíprocas, mãos que se encontram e se separam, que se tocam, se examinam, corpos que se enlaçam, bocas que se procuram e se beijam.

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