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Mostrando postagens de Dezembro 20, 2016

O peso da liberdade

Sentia as madrugadas se espraiarem e a sensação de que a vida se alongava, ali, naqueles momentos fugazes. Nada havia para impor: a natureza se completava.
A vida estava além das paredes de seu quarto. Estirava-se nas sombras encardidas dos muros mal pintados, nas sacadas fragmentadas, nas quais figuras se expunham assim, descomedidas e sem pudor.
Transformavam-se em manchas de água, nas calçadas limpas, sereno incrustado da umidade gélida produzida.
Era assim. A natureza se esbaldava em fervor, em criação e criatura, em inventar a vida.
Para ele, as madrugadas não passavam de um espiar solitário pelas persianas.
Um olhar entrecortado em tiras. Um olhar apenas.
Nada que impusesse uma vontade forte, que se derramasse em seu corpo e atingisse a alma.
Que nada. Bastavam os sons difusos da noite insípida em que se resumiam suas horas. Uma coisa insossa. Uma coisa sua, mas que não compartilhava com ninguém. Melhor assim.
Melhor deixar-se vesgo e perturbado ante o desconhecido que só vislumbrava…